"Mas eu não sabia que você não sabia!" Frases assim mostram uma descoberta importante: a de que a cabeça do outro não é igual à nossa. Na psicologia, a capacidade de imaginar o que outra pessoa pensa, sente, quer ou acredita é chamada de teoria da mente. Ela vai se construindo ao longo da infância, com as conversas, as brincadeiras e as situações do dia a dia.
O que faz parte da teoria da mente
- Desejos diferentes: eu gosto de brócolis, você não gosta, e está tudo bem.
- Saber e não saber: quem não viu onde o brinquedo foi guardado não sabe onde ele está.
- Crenças, inclusive as falsas: o colega acha que o lanche ainda está na mochila porque não viu que ele foi trocado de lugar.
- Emoções escondidas: às vezes a pessoa sorri por fora, mas está chateada por dentro.
- Intenções: esbarrar sem querer é diferente de empurrar de propósito.
Como isso aparece no dia a dia
Uma criança que ainda está construindo essas noções pode achar que todo mundo sabe o que ela sabe, contar uma história pulando partes importantes, ter dificuldade em esconder um segredo numa brincadeira ou interpretar qualquer esbarrão como provocação. Nada disso é falta de educação: são habilidades que ainda estão se formando e que podem ser treinadas com calma.
Brincadeiras para casa e consultório
- Onde ele vai procurar? Com dois bonecos, um guarda a bola na caixa e sai. O outro muda a bola de lugar. Pergunte: "Quando ele voltar, onde vai procurar?"
- O que tem na caixa? Coloque lápis numa caixa de biscoito. Depois de a criança descobrir, pergunte o que um amigo que não abriu a caixa vai achar que tem lá dentro.
- Gosto meu, gosto seu: cada um diz um sabor de que gosta. A criança tenta adivinhar o que o outro escolheria para ele, não para ela.
- Leitura com pausas: ao ler um livro, pare e pergunte: "O que ele está pensando agora? Ele sabe o que vai acontecer?"
- Foi sem querer ou de propósito? Conte pequenas cenas e conversem sobre as pistas que ajudam a decidir.
Use perguntas abertas e aceite respostas diferentes. O objetivo é a criança explicar como pensou, não acertar de primeira.
O papel do adulto
Falar em voz alta sobre o que as pessoas pensam e sentem ajuda muito: "A vovó não sabe que você já almoçou, por isso está oferecendo comida." "Seu amigo ficou triste porque achou que você não queria brincar com ele." Esse tipo de comentário, feito no dia a dia, mostra para a criança como a gente imagina a cabeça do outro.
Quando procurar ajuda
Cada criança tem seu ritmo. Se a dificuldade de entender o outro estiver atrapalhando muito as amizades, a escola ou a convivência em casa, converse com um profissional, como psicólogo ou fonoaudiólogo. As brincadeiras ajudam a treinar, mas não substituem uma avaliação.
Como o Clube do Tico pode apoiar essa conversa
- O que o Tico Está Pensando?: situações sobre desejos, saberes e crenças de cada personagem, inclusive crenças falsas.
- Detetive Social: O que Aconteceu?: pistas, intenções, acidentes e mal-entendidos para investigar junto.
- O que Eu Faria? Escolhas do Tico: escolhas e consequências com os amigos, em casa e na escola.
Depois de jogar, leve as perguntas para a vida real: "E o seu amigo, o que será que ele pensou?"